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sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Negativo, Negativo

Abriu os olhos e não conseguiu tocar no despertador que berrava há pelos 2 horas. Saiu da cama e o chinelo fugiu dos seus pés. Estava sem roupa nehuma. Quando tentou tomar banho, estranhou ao perceber que nenhuma gota de água caia no seu corpo. Ele tinha se transformado em um imã e tudo ao redor estava no mesmo pólo. Logo se acostumou com a situação. Ainda era complicado sair de casa pelado, mas com um tempo ninguém mais reparava. Gostava de saber que nenhum mosquito o picaria nunca mais. Era quase um ser pintado de urânio, só faltava brilhar. Não tinha muito o que reclamar com os benefícios. Difícil era não poder abraçar mais ninguém. Por um momento pensou que se tivesse acordado duas horas mais cedo, sua vida estivesse diferente. Mais atrair tudo em volta também não seria legal.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Balançado

O ônibus estava balançando mais que o habitual. Conhecia cada curva, desvio e buraco do trajeto. Poderia se guiar de olhos e ouvidos tapados sem jamais errar sua localização. Havia algo de estranho nesse dia. Desceu três paradas antes porque já não agüentava mais o desconforto. Começou a andar pela calçada e percebeu que o balanço continuava. Parou. Andou novamente, mais rápido, a vibração era ainda maior. Notou, apenas sua cabeça sentia aquela oscilação. O resto do corpo nem mexia. Olhou os pés e ao retornar o olhar para cima, caiu tal forte foi a tonteira. Sacudiu a cabeça e começou a desconfiar que seu cérebro tivesse se desgarrado do crânio. Pegou um táxi e ao entrar sentiu seu coração bater dentro da barriga.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Incêndio na Pampulha

Comecei por quebrar sua caixa de correios. Incendiei sua casa, seu carro e principalmente o seu gato. Enfiei cápsulas de gasolina nele antes e foi lindo quando aquela bola frenética de fogo explodiu. Nunca vou esquecer do seu rosto coberto de pêlos e vísceras daquele siamês infernal. Faria o mesmo com você. Comecei a substituir seu sangue por álcool em gel. Quando percebi que cada uma das suas veias estava preenchida comecei a tortura. Reli todas as cartas que tinha me escrito, exibi todos os nossos vídeos românticos que o You Tube bloqueou e passei um longo slide das nossas melhores fotos. Você entrou em autocombustão antes do fim. Só sobrou seu coração que sempre foi um gelo e nunca teve nenhuma serventia.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Algas

Acordou com uma forte onda grande molhando o seu pé. Quando tentou se levantar viu que seu corpo estava coberto de algas verdes. Mais forte era o movimento maior era o peso em cima dele. Relaxou e pensou em esperar que o sol forte secasse as algas, mas foi o contrário que aconteceu. À medida que as horas avançavam, os talos das algas entram por dentro da pele. Uma mistura de clorofila e sangue passou a circular por aqueles dois seres que passaram a ser um. Todos os seus pêlos floresceram e plânctons davam uma nova coloração aos seus olhos. Sua língua ficou multicolorida como de um raro coral pulsante. Ele já pensava como uma alga quando finalmente se libertou. Sua primeira ação foi se lançar para o fundo do oceano revolto.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

A Zeladora

Um mp3 no bolso do uniforme. Só um dos fones no ouvido. Luva na mão. Abre lixeira. Esvazia lixeira. Fecha lixeira. Pega bandejas. Limpa bandejas. Separa bandejas. Azul, Burger King. Verde, Mc Donald’s. Cinza, Girafas. Detestava copos descartáveis. Olha a colega de uniforme e sorri. Troca música. Apalpa seio. Aperta mamilo. Segue para o vestiário. Tira o lixo das lixeiras do carrinho. Guarda o carrinho. Tira a luva. A colega aparece. Tiram o uniforme. Olham o relógio. Têm dezoito minutos. Apalpa o seio. Dela. Morde os mamilos. Dela. Troca música. Separa cada parte. Sua. Junto com cada parte. Dela. Senta a colega no carrinho. Desliga a música. Tira as pilhas do mp3. Restam cinco minutos. Será que as pilhas vão agüentar?

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

colméia de cães

Ela se limitou a dizer que estava bodada porque o sol cansa. Preferia ficar sentadinha na poltrona com a luz apagada. Quem quisesse chegar mais perto teria que ignorar qualquer tipo de pudor. Ela não tinha nenhum. O dia todo de mini-saia. Ficava com a perna aperta para que os cachorros a lambem-se. Rottweiler, Pequinês, Basset, Pastor Alemão, Pinsher (do número três pra cima), Rusky Siberiano, Bulldog, Poodle, Pitbull, Collie, 101 Dálmatas, Yorkshire Terrier, Fox Terrier, Terrier Brasileiro, Dobermann e todos os vira-latas. Se surpreendia com as raças raras e com as combinações. Nunca se importou em nomeá-los ou qualquer coisa do tipo. Eles também não sabiam o nome dela. Nem ela sabia. E a cada pôr-do-sol, lá estava ela. Bodada e lambida.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Colônia de Fungos

Fungos cresciam na sua pele durante a noite. Acordava sempre com o corpo todo branco tomado pelo bolor. Já tinha feito de tudo. Dormia de cortina em lençóis esterilizados. Tomava banho de duas em duas horas. Por fim, trocou o dia pela noite. Nada resolvia. Passou a usar tubos metálicos no nariz para que a colônia não lhe impedisse de respirar. Já na boca usava uma bexiga cheia de farinha e muito batom pedido em revista. Certo dia resolveu dormir dentro da piscina. Três semanas depois já respirava sem ir à superfície e bactérias zinguezangueavam em seus músculos.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

O verdureiro

Ele nunca falhava. Todos os dias passava no meu portão oferecendo sempre verduras fresquinhas. Eu ria e dizia que não era preciso. Já tenho minha horta em casa e estou muito bem com ela. Mesmo assim, todo dia ele passava aqui em frente. Um dia perguntou o que eu tinha na minha horta. Apenas alface, alecrim e cebolinha. Ele riu e disse que eu deveria levar manjericão, agrião e rabanete. Aceitei a oferta e desde então passei a comer menos as verduras da minha horta, já que tenho que adubar, regar e só depois colher. Com o verdureiro é bem mais fácil, ele já trás tudo crescido e pronto para consumo.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

programa de vovó

Acho televisão uma coisa enfadonha. Antes que pensem que é birra aos avanços tecnológicos, já digo que não. Até porque, qual a grande tecnologia da/na televisão? A maioria das novelas tem a história parecida com as três primeiras que vi antes de ir para o colégio de freira no norte do estado. Acredito que programa de fofocas e receita é coisa de/pra velha que não tem o que fazer em casa. A vovó, aqui, é ocupada. Assistir a telejornal é coisa de masoquista. E a vovozinha, aqui, é uma dominatrix. Prefiro desligar a TV e viver a pornografia. É assim que volto do mercado sempre com o carrinho cheio.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Estrada do Galeão

Exatamente na hora marcada, ele chegou à porta do aeroporto. Me esperava no desembarque azul – internacional. Seria difícil ele entender que Vitória não fica em outro país? O carro só tinha duas portas, era pequeno e sem ar-condicionado. Desde quando carioca ignora o calor? Disse que foi de bom grado, mas porque era no Tom Jobim, se fosse no Santos Dummont, ele não iria. Alegou que não gosta de sair da Ilha pra nada. Tomei a direção de volante e joguei o lado dele do carro contra um caminhão de carga. Agora, ele vai dormir na geladeira do IML, no Centro, para deixar de ser mané.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Cerveja, por favor!

Não sei quem inventou que velho tem que andar com velho? Essas excursões da “melhor idade” me apavoram e me deprimem. Detesto ter que esperar as “amigas” que a cada dois passos, param para “tomar um arzinho”. Acho “o” fim, aquelas que não podem ver uma planta bonita e já querem pegar um muda. Se não cuidei de criança, lá vou cuidar de uma avenca?! Quando me aparecem com suco ralo e sem açúcar na hora do almoço, peço para morrer. Eu tomo é cerveja! E nem adianta me dizer qual é “o” segredo dessa torta de camarão com palmito. De-tes-to essa mania de cozinhar.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Avulso

Não, não mia. Essa voizinha fina me corta a onda. Pára! Me arranhar desse jeito vai me deixar marcas e eu amanhã vou pra praia com minha mulher e filhinha. “Papai, por que suas costas estão vermelhas?”, não quero ouvir de uma criança de 5 anos e um olhar fuzilante de uma de 39. Pô, não mordisca. O mamilo sempre dói muito depois. Ih! Olha esse miado de novo. Quando disse que gostava de gato, estava falando do seu rabo! Isso mexe bem ele, mexe!

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Sessenta e três portas

Escolheu o topo de um prédio abandonado de 60 andares para dizer que não me amava. Pensou que eu me jogaria e não contava que o prendesse na escada de incêndio. Todas as portas estavam trancadas, informei antes de pegar o elevador para o térreo. Ele gritou e pediu uma saída. Angelicalmente, eu disse que abriria uma das sessenta três portas, incluindo as dos andares de garagem. Ele teria 20 minutos para encontrá-la. Se fracassasse, eu a trancaria, abriria outra num andar aleatório e diminuiria o tempo em 5 minutos. Depois de duas rodadas, peguei um táxi e fui embora. Sem deixar nenhuma porta aberta.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

sem espuma

Não sei quem inventou que velho tem que andar com velho? Essas excursões da “melhor idade” me apavoram e me deprimem. Detesto ter que esperar as “amigas” que a cada dois passos, param para “tomar um arzinho”. Acho “o” fim, aquelas que não podem ver uma planta bonita e já querem pegar um muda. Se não cuidei de criança, lá vou cuidar de uma avenca?! Quando me aparecem com suco ralo e sem açúcar na hora do almoço, peço para morrer. Eu tomo é cerveja! E nem adianta me dizer qual é “o” segredo dessa torta de camarão com palmito. De-tes-to essa mania de cozinhar.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

o projetista

Nos conhecemos num dia que eu entrei no cinema para me abrigar da chuva. Ele recolhia perfurava os ingressos enquanto as pessoas iam entrando e depois corria para a sala de projeção. Achei o “tenha uma boa sessão” dele tão carinhoso que antes da metade do filme já estava em cima dele. O som da bobina abafava nossos gemidos. Tínhamos que ser rápidos, pois era um média metragem. Passei a ir lá toda sexta-feira. Às vezes ajudava ele a fazer a fila andar mais rápido. Detestava mostras de curtas, mal começávamos e ele tinha que parar para trocar o rolo. No dia que teve retrospectiva de “O Poderoso Chefão” quase não tive descanso e a rodada entre o Um e o Dois só perde para o dia que estreou “Dogville”. Amava os clientes que viam os créditos finais.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

o porteiro

Ele não era bonito, mas dizia que me amava e nunca deixava eu pagar a conta. C’est sufi, pensei. No nosso primeiro encontro, ele disse que ficou surpreso que eu tivesse retribuído o olhar e mais ainda o beijasse na boca. Só lembro de passar minha língua em seus dentes para ver se tinha todos ou pelo menos os da frente. Nunca pedi para que ele tirasse o boné. Na verdade, que ficasse totalmente pelado. Ele não usava cueca e isso já era intimidade demais. Eu interfonava e ele subia. Nem sempre eu abria a porta, mesmo assim ele nunca deixou de ir.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

O gato da Rainha de Copa

Minha primeira atitude foi arrancar um a um os dentes dele. Os mais duros quebrei e deixei apenas a raiz. Um bom copo de coca foi minha sensibilidade na hora de lhe matar sede. Finalmente tinha retirado do rosto dele aquele sorrisinho que acha que resolve/consegue tudo. Dois dias depois, ele me disse que estava com fome através de sinais. Sempre usou os dentes na hora de falar e agora sem eles não sabia como. Ofereci um jantarzinho light: salada crua de cenoura, beterraba em rodela e brócolis temperados com vinagre balsâmico. A sobremesa: maçãs verdes. A minha segunda atitude foi cortar cada um dos dedinhos dele. Volta e meia ele enfiava onde não devia.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Nada de xepa...

Jamais freqüentei baile da terceira idade. Não sei jogar dominó e a tal regra do proibido dar caroço, me incomodava. Isso de ter que dançar com todo mundo não me agradava. Era só o que me faltava não poder recusar parceiro depois de velha. Sempre fui enxuta. Muito bem cuidada. Quarenta por cento da minha pensão era gasto em produtos da linha Renew. Ou seja, o mínimo que eu queria era bailar com homens de quarenta anos com fôlego de vinte in natura. E se tem uma coisa que aprendi nessa vida era saber exatamente onde encontrar o que precisa e pagar pelo preso justo.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Veprové knedliký a zelý (carne seca de porco)

Abriu a porta e me sorriu como se visse o melhor amigo voltando de uma longa temporada na Tchecoslováquia. Obviamente, esperava presentes e histórias para mostrar que lembrei dele em vários passeios. Antes, me fez ouvir atentamente todos os seus segredos íntimos e contabilizar as vezes que tinha dado para o pedreiro da casa vizinha. Aos prantos confessou que me traiu com meu marido e disse que precisava do meu perdão. Voltei pra casa com mais peso e durante duas semanas experimentei várias receitas tchecoslovacas a base de carne de porco. Meu marido reclamou que a carne era gorda, mas comeu tudo todos os dias.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

bilhete único (vale transporte)

Ele vinha de olhos claros e bonezinho de veludo pela rua. Só faltava um relógio de bolso para compor o visual. Talvez, um guarda chuva xadrez cairia bem – para girar no braço enquanto assobiava, já que o dia era de sol. Caminhava feliz. Bem contente. Super alegre. Chegava a ser arrogante. Sim, ele era muito arrogante envolto em tanto contentamento. Empurrei-o na frente do primeiro ônibus que passou. Quer dizer, do primeiro ônibus de cor amarela e placa “Realengo”. Não ia dar o prazer a ele de morrer chique num “vermelho-Leblon”.
 

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