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sexta-feira, 18 de julho de 2008

silêncio (9)

Ontem juntei os papéis e tentei organizar os mapas que você fez de mim. Às vezes confundo o susto (de verificar de novo que você me conhece melhor do que eu) com a idéia de que você concorda com meus modos e ritmos. Outras vezes, a sua precisão cortante me soa como produto de uma mente racional demais, distante demais, parece que você desistiu de mim. E então eu leio, no canto de um mapa que tinha antes me passado discreto, que eu interpreto tudo o tempo todo, que dou a tudo o sentido dos meus humores. É como se isso te segurasse ou me segurasse em um ponto intermediário entre uma entrega irrestrita e sua partida imediata. Consigo já prever suas restrições ao meu raciocínio pouco matizado e sei que você vai me surpreender.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

silêncio (8)

Ou então, percebo agora uma outra possibilidade, querer viver o presente era um jeito de esconder nossa falta de jeito de cumprir os planos. A gente achava que ser livre era poder mudar de opinião o tempo todo. Pensar-nos livres assim nos era favorável na medida em que não conseguiríamos manter nada por muito tempo. (E aí você se lembra de quando eu decidi estudar xadrez em Omski e mantive essa escolha por dois anos enquanto aguardava que eles me chamassem. Eu não via diferença entre insistir em uma idéia simples e combinar uma seqüência de decisões, embora soubesse, sobre o tabuleiro, distinguir uma escolha, uma idéia e um plano.)

sexta-feira, 27 de junho de 2008

silêncio (7)

João, sempre quieto, sussurrava no ouvido da mãe o que quisesse dizer quando estavam na casa da avó. Não queria atrapalhar a conversa dos outros. Adulto ele, ontem, bebeu vodca na festa para ficar falante esperto engraçado. Esqueceu por poucas horas o cuidado de não fazer barulho nem ocupar espaço demais. Hoje acordou tarde com uma leve dor de cabeça e um mau humor que o penalizava, apesar das memórias das alegrias compartilhadas, por ter talvez ultrapassado a contenção que o protege dos fracassos. Na frente do computador, em tentativa de passar o tempo e esquecer as dores, escreveu para o amigo que organizara a festa "Festa ótima, muita diversão. Você me desculpa?"

sexta-feira, 20 de junho de 2008

cinema (2) - Elefante (Gus Van Sant)

Uma das possibilidades da ficção é empurrar pedras grandes e insistir em caminhos proibidos segundo as regras da não-ficção. Aí eu lembro de momentos em que descobri alguma agressividade potencial em mim. E eu lembro do prazer e das conseqüências de usar esses motivos na ficção e em algum contrário dela. A ficção permite a inconseqüência dos personagens. O não-ficcional pode em teoria isolar-se protegido. Eu sempre aprovo a iniciativa de empurrar mais longe no discurso, para brincar de novidade. Dúvidas tenho sobre carros com muito motor e pouco freio, sobre viver só o presente (e abrir mão da humanidade e dos compromissos), sobre matar criancinhas e sobre a superfície das palavras. Quanto aos personagens, podem morrer todos. Até gosto.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

cinema (1) - Cidadão Kane (Orson Welles)

Muitas listas publicadas são feitas por jornalistas. Se boxeadores fizessem listas, Rocky poderia ser o melhor filme da história. Sempre evitei assistir a filmes sobre boxe e boxeadores. Continuo evitando, apesar de Touro indomável. Boxeadores não assistiriam a esse filme, imagino, a não ser em um mundo de boxeadores que fazem listas. Listas colocam lado a lado o primeiro filme em technicolor e um filme do Ozu, para que a erudição inclua mais um japonês na lista. Me parece mais sensato, em vez de top 100, 100 filmes de que gosto - evita que façam a propaganda do filme sobre o Nelson Ayres como um filme sobre o quinto melhor pianista do mundo. Do Orson Welles, prefiro O Processo.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

silêncio (6)

Ana entrou sorrindo mas fingia. Antonio apertou o play e ela assistiu mal humorada o filme que o namorado tinha escolhido para ela. Depois deitaram-se juntos sem dizer uma palavra. Ana esperava que Antonio adivinhasse sua euforia, que ela naquela noite queria beber, dançar e dormir tarde. Henrique, a poucos metros dali, passou a noite alternando doses de cachaça e copos d'água. Quando Henrique chegou ao bar, Agnaldo, do outro lado do balcão, separou para o cliente um copo americano e o preencheu quase inteiro de Ypioca. Henrique sorriu e, enquanto bebia, mergulhou numa infância distante quando antes de ele chorar a mãe lhe adiantava o peito polpudo de leite.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

silêncio(5)

Luciana expressa em palavra e gesto cada mínimo pedaço de pensamento. Diz, marca, promete, muda de opinião, vive cada alternativa como única, investe-se de cada hipótese, chora, ri, desdiz, pede desculpas, desmarca, vai embora. Ela me lembra o Toró, guitarrista d'O buraco, a banda em que eu era baixista. Tínhamos quinze anos. Nunca tinha visto alguém conseguir tantas notas em tão pouco tempo. O Toró sentia-se bem por encaixar cada vez mais som no andamento das músicas. Era um atleta. Nossa música era um quadro pesado com muita tinta em relevo. O Toró marcava o tempo com as notas, pulava as pausas, nunca fazia silêncio. Ele dizia que eu tocava devagar.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

silêncio (4)

O silêncio de Antonio não é opaco de parede, é transparente de vidro muito limpo. O silêncio de Antonio aceita a mão que sustenta o golpe. Rompe-se em partes agudas. Uma parede machuca quando resiste. O silêncio de Antonio corta o braço pelos lados enquanto os músculos se esforçam para frente. O entusiasmo do braço forte é que permite a sedução. Um pouco do vidro quebrado fica na moldura da janela e dificulta a volta do braço. Enquanto respira e elabora a estratégia para voltar, a mão experimenta a felicidade calma de quem se livrou de um desespero. O silêncio de Antonio é discreto, é mistério com cara de melancolia que seduz o curioso.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

silêncio (3)

Edu entra engatinhando por um dos cantos da sala. Nina e Alfredo, os outros bebês, brincam com as mãos e sorriem. A porta é fechada atrás de Edu. Ele, que não domina as possibilidades de sedução pela palavra adequada, começa a berrar incontinente sua saudade de alguma coisa atrás da parede. Nina e Alfredo assustam-se e unem-se nos gritos. Por três minutos, o barulho amplificado dos bebês incomoda a cada um na sala de projeção. Dois mocinhos no fundo começam a imitar o barulho da tela em sua idiotia ritual. A porta é aberta. Os dois imbecis são arrastados para fora enquanto clamam por liberdade como um convite ao combate.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

silêncio (2)

Vermelho, ele disse, e apertou o botão. Em seguida, passou a argumentar sobre a escolha. Rápido, o raciocínio construído lhe deu certeza. Vermelho. Quando viu o botão verde, negou logo, mas os argumentos não ajudaram. Tentou desapertar o vermelho para pensar melhor. A máquina começou a fazer um som agudo de correias freando. Continuava ainda em marcha. O homem reapertou o vermelho que já escapava, o que não evitou o barulho. Tinha já certeza de que o verde era a escolha certa. Olhou desesperado para o interlocutor (que continuava quieto): por que você não me ajuda? A máquina funcionava de maneira estranha. Foi quando o homem percebeu um botão amarelo no canto do painel.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

silêncio (1)

Diz a parte engraçada e, na falta de resposta sobre o engraçado ter sido transmitido, continua, parafraseia, faz gestos largos, grita, imita os personagens em vez de descrevê-los. Perde-se, esquece o que o motivou a falar. A empolgação mal expressa se cansa, a voz diminui o tom, os gestos se contêm, cresce a vontade de entender. Acalma-se. Tenta imitar o interlocutor que continua quieto. Torna-se levemente melancólico, faz considerações sobre o humor difícil de quem o escuta. Logo um novo golpe de euforia se veste com uma história que poderia ser boa se dita em segundos, mas que se estenderá por vozes e gestos e palavras desnecessárias.
 

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