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terça-feira, 31 de março de 2009

Ungeheueren Ungeziefer

"Als Gregor Samsa eines Morgens aus unruhigen Träumen erwachte, fand er sich in seinem Bett zu einem ungeheueren Ungeziefer verwandelt." Embora eu nunca tenha despertado na minha cama transformada numa criatura rastejante ou praga doméstica, muitas vezes, depois de frações de tempo em que meu cérebro parou de funcionar, me vi novamente localizada no mundo com a sensação de ter esquecido a carga social e genética que me faziam estar ali, fazendo o que eu estava fazendo. Não me senti como um besouro, mas um inseto genérico moldado por aquela substância cujo nome esqueci, duríssima, que compõe seu corpo crocante e mantém represado o plasma indefinido que se traz dentro.

terça-feira, 24 de março de 2009

Cortina japonesa

Em meu quarto de menina, no prédio em que moramos antes do pai morrer, cabia a cama e um armário de duas portas. Tinha um espelho na parede e cortina japonesa sobre a janela basculante. Eu achava a casa da Tamy mais bonita que a minha. Não gostava tanto dela, sim de sua casa. Um dia me fechei no quarto, sentei de costas para a porta e tentei colocar um lápis de madeira na vagina. Talvez tivesse uns 10 anos. Era um lápis grande e grosso, brinde da madeireira que fornecia tábuas para a marcenaria do pai. Às vezes, sentada no banco do piano, tinha a impressão de ver seu fantasma atravessando a sala. Depois minha irmã cortou todo o fio do telefone com a tesoura.

terça-feira, 17 de março de 2009

Malandragem VIII

Encontramos uma kitchinete pequena e feiosa numa travessa obscura atrás do Hospital Sírio Libanês. O proprietário demonstrou uma gentileza surpreendente ao telefone. Compreendeu perfeitamente que eu era estudante, meus pais moravam em outro estado, eles tinham casa própria e podiam ser fiadores SE ele aceitasse a escritura de outro município como comprovante. Fomos empolgadíssimas até o escritório no Largo São Francisco. Ele nos convidou a sentar, serviu café, discursou fartamente sobre sua compreensão não burocrática e mais profunda da função do fiador - um documento não é nada sem a compreensão do que significa em termos reais. Rafa invocou que o homem estava dando em cima de mim e cancelou o negócio.

terça-feira, 10 de março de 2009

Malandragem VII

Esse era meu problema. Era mais difícil entender as complicações da Rafa. Segundo me contou, sabia que era lésbica desde muito nova, entre doze ou treze anos. Foi apaixonada pela professora de artes, depois pela amiga da escola de inglês. Nunca discutiu o assunto com a mãe mas esperava que as pistas fizessem o serviço. Música punk, cabelo curto, cortava com "não me encha o saco" qualquer conversa no estilo "você tem namorado?" Parecia realmente uma versão moderna de sua mãe, empresária que entendia de prospecções e graus de investimento, bebia gin e assistia shows na Broadway. Sua mãe me assustava, naturalmente, mas eu vinha de um mundo em que as pessoas jantavam pão de forma diante da TV.

terça-feira, 3 de março de 2009

Malandragem VI

Assim adiávamos a questão. Eu não conseguia entender o problema. Sua mãe me assustava, naturalmente, mas eu vinha de um mundo em que as pessoas jantavam pão de forma diante da TV. Rafa era sempre tão forte e determinada, tinha essa relação estranhamente próxima e brusca com a mãe - uma rispidez sinuosa e inteligente. Por que não podia falar diretamente? Um dia juntei toda minha serenidade para iniciar a conversa com calma. Poderíamos combinar uma estratégia, um comentário casual quando Letícia saísse para o trabalho: “Mãe, a Kátia vai dormir aqui. Várias vezes. Não estranhe.” Rafa se recusava. “Mas por quê?”, ”Não quero. Pronto. Não me encha o saco.”

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Malandragem V

Marcamos na pizzaria do sacolão. Fui até o caixa eletrônico mas só tinha dez reais na minha conta. As mesas estavam vazias e sentei no lado de fora. A Rafa chegou no carro da mãe dela e ficamos um tempo num assuntinho qualquer. Então contei do cineasta que eu tinha encontrado no sábado. “Cineasta?”, “Parece que ele fez uns filmes.”, “Rolou alguma coisa?”, “Rolou.” Ela ficou quieta e depois me olhou irritada: “Por que você me conta essas coisas?”. “Achei que você preferia saber.” Ela balançou a cabeça e só disse: “merda”. Eu estava toda carente na verdade, e com fome também. Perguntei se ela tinha algum dinheiro, meus dez reais eram uma triste piada. Ela ficou boazinha e buscou um pedaço de pizza pra mim.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Malandragem IV

Peguei minhas coisas e fui pro banheiro. Natália perguntou se podia ficar comigo, eu deixei. Tirei a roupa e ela ficou me olhando. Enquanto estava no chuveiro falamos um monte de coisas bobas, depois saí e me enxuguei. Fomos deitar no quarto dela, que tinha bicama. Ela pediu pra eu contar uma história, contei a história do sapo, acordamos no outro dia, troquei a roupa dela e depois comecei a me vestir. Tirei o sutiã que estava usando e peguei outro. Natália disse: “Você dá ele pra mim?” Aquele sutiã tinha custado vinte e cinco reais. Eu ia ganhar cinqüenta pra passar o fim de semana com ela. Ela não tinha peito nenhum, nem ia poder usar. Mas ela pediu de novo e eu dei.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Malandragem III

Saí da casa dela umas dez e pouco, fui andando pro meu apartamento. Tava fresco, à noite, eu usava uma sandália de couro trançado meio bege, prendia no tornozelo. Era uma época que eu pintava o cabelo de loiro escuro, gostava de sair na rua toda assim, pensando “sou uma alemã”. Tirei a chave da mochila já no elevador, quando cheguei no meu andar vi a luz acesa por baixo da porta. Não tinha música. Ela estava sentada na minha cama, lendo, muito séria mesmo. "Quem abriu a porta?" - perguntei. "A enfermeira". Depois disse baixinho: "Sabe o que dizem das lésbicas por aí? Que ficam abraçadas a noite inteira, conversando sobre suas mães". "Você quer falar sobre a minha mãe?"; "Ouvi dizer que ela é uma gostosa".

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Malandragem II

Eu não conhecia ninguém na cidade que servisse de fiador, ou seja, ninguém com salário e proprietário. As pessoas viram proprietárias depois dos 30 ou então NASCERAM proprietárias, eu não conhecia ninguém assim. Na minha família, claro, pais e tios que trabalharam a vida toda economizando e pagando financiamentos, mas eles estavam a 400 km de distância e ainda bem. Eu estava fugindo desesperadamente desse destino implacável de economizar e trabalhar e economizar e trabalhar e por isso dormia entre quatro camas na república das enfermeiras mas estava difícil ser estudante e independente e pobre e lésbica porque para praticar este último adjetivo eu PRECISAVA de um lugar pra transar.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Malandragem I

Nós precisávamos de um lugar. Eu estava há três meses na república das enfermeiras e já tinha percebido que não ia rolar. Elas às vezes traziam namorado para dormir na sala. Mas namorados normais, enfim, eu não ia criar toda uma discussão filosófica pra acabar sendo expulsa. A mãe dela ainda deixava eu dormir lá mas até onde poderíamos ir? Não pelo barulho, claro, tínhamos técnica nisso, mas a frequência exagerada ia dar na cara. Rafa queria que eu alugasse um apartamento só pra mim. “Está louca?Com que dinheiro?”. “Eu te ajudo”, ela dizia. Mas eu não ia nunca assinar um contrato e ficar amarrada na dependência dela. Tínhamos que encontrar algo que eu pudesse pagar sozinha.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Meio negra

Nasceu em Ponta Grossa, a mãe em Curitiba, a avó na Bahia; apaixonada por um polaco (a avó) veio para o Paraná, moraram juntos, engravidou, ele sumiu. Meio negra (o que é isso?), trabalhou como assistente de enfermagem até se aposentar; insistiu que a filha estudasse; ela (a filha, a mãe) formou-se em engenharia mecânica porque queria um curso difícil – um curso de verdade, um curso masculino. Mais clara que a mãe, moreninha, os cabelos encaracolados já não eram crespos. Cacheados. Casou também com um clarinho, italiano, seu colega de turma. A filha ninguém saberia julgar exatamente – espanhola? portuguesa? iraniana? Adolescente nos anos 90, não queria namorar um branco. Por que todas fizeram isso?

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Nas cataratas

Treze reais para entrar no Parque Nacional mas o passeio de barco às cataratas custa centro e sessenta e nove. Três obsessões do país: Fanta Uva, Chaves e o Pica Pau nas cataratas. Eu era adolescente e o desenho passava sempre ao meio-dia; voltava do cursinho, enchia o prato com a comida fria no fogão e sentava em frente à TV no quarto dos meus irmãos. Pica Pau obsessivamente tentando descer as cataratas em seu barril. Um guarda gordo – leão marinho? – tentando impedir e sempre caindo em seu lugar. A multidão à margem levantava os braços: Hey! Cento e sessenta e nove reais por cada bilhete – trezentos e trinta e oito no total. Subimos no bonde elétrico e descemos em direção ao rio. Os coletes salva-vidas já estão molhados.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

CPF

Quantos anos eu tinha? Ainda morava com minha mãe. Catorze? Na oitava série ia ao banco toda semana, depositar o dinheiro da viagem de formatura. Nossa turma tinha dezoito alunos, a cada dia alguém trazia um bolo. A forma retangular, eu mesma cortava, três facadas numa direção, quatro na outra, vinte pedaços. Só a oitava série podia fazer isso: concorrência na fila da cantina. Os mais novos eram convencidos a comprar por nosso charme debochado. Organizar, produzir, vender, poupar. O dono da cantina concordava, fornecedor envolvido no processo educacional. Licença para comerciar por motivos didáticos. A conta estava em nome de quem? Não era a minha agência. Com meu CPF, fui na Caixa Econômica do outro lado da rua.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Charada de seu Teófilo

Sete linhas mal preenchidas e uma charada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Pita matou quatro, quatro matou sete . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . Dos sete escolhi a melhor . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Atirei no que vi, matei o que não vi . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Com a madeira santa, assei e comi . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Sem tirar água do céu ou da terra eu bebi . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . E com isso cheguei aqui.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Mandala 2

A mandala tem vinte centímetros e eu queria pendurar na janela, em frente ao computador, para absorver seus sinais pacificantes e lembrar de minha mãe. Mais fácil seria amarrar o fio entre as grades, sem bater prego nem nada, somente dar um laço apertado. Mas há apenas quinze centímetros nas frestas. A mandala é de vidro e não sabe dobrar. Há o vão entre a janela e a grade, um bom espaço, casa antiga com o vidro recuado nessa espécie de caixote. Peguei o martelo e alguns pregos de aço, em dúvida. O receio se confirmou: um caixote de concreto sólido, teria mesmo de ser, a grade está “chumbada” como dizem. Um dia talvez eu aprenda a usar a furadeira. Por hora, apenas catei uma ripa de madeira na oficina, encaixei transversalmente e bati o prego ali.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Mandala

Esse é um texto leve com algumas palavras enfileiradas preenchendo linhas para descansar a mente como uma música. Eu estava na cidade onde nasci, visitando minha amiga e minha mãe, e subimos a ladeira de paralelepípedos saindo do bebedouro onde os tropeiros deixavam seus cavalos bebendo água há tantos anos, subindo até a igreja, a praça do relógio onde fica a escola de balé em que estudei com tia Dora. Minha mãe aprendeu xilogravura e está apaixonada por mandalas que relaxam os olhos e trazem paz. Queria me dar um presente de Natal, era domingo e a ladeira estava cheia com as barracas da feirinha de artesanato. Subimos entre centenas de pessoas mas a multidão não me assusta, não mais. Chegamos à barraca do homem, minha mãe disse para eu escolher a mandala mais bonita e escolhi.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Ninguém aguenta

André, respondendo à sua dúvida, queria apenas dizer que não sou jornalista, mas até onde entendo as matérias de um jornal devem atender a uma mesma proporção difusa entre vários interesses humanos: dez por cento de coisas raras (como as bandas que você gosta) e outro tanto de coisas normais, fáceis ou conhecidas, como você queira chamar. Ninguém agüenta uma vida inteira de novidades: a repetição acalma, faz refletir, amplia o entendimento de idéias que são difíceis apreender à primeira vista. Para te responder completamente, deveria entrar em questões mercadológicas da indústria musical, mas não quero. Somente prefiro dizer, se você me permite, que é preciso ter um pouco de paciência com os outros.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

O escuro

Palavras de meu pai explicando um enredo de Dylan Dog: "o advogado diz que o escuro é um reservatório enorme e infinito, depois diz que o escuro não tem começo e não tem fim, o escuro existe mas também é o nada, no escuro as coisas reais viram sonhos e vice-versa. Não é por acaso que a Kelly diz que o seu monstro é o escuro, as palavras em negrito, as próprias letras escuras mostrando a estranha dimensão na qual viajamos todos os dias. Então vamos comparar isso com o Soares. O Soares não sabe de onde veio, quer dizer, o passado pra ele é uma coisa escura. Ele foi até os oito anos criado pela mãe, a mãe morreu, o pai desapareceu, entregou ele pra alguém e sumiu no mundo." Epaminondas Soares era meu avô.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Para o lixeiro

Um poema de Pessoa dizia algo, que era? Hoje não, hoje não posso, hoje é impossível, hoje nada. Mas acordo cedo, recolho um saco inteiro de cocô dos cachorros acumulado durante a semana, deixo o saco na calçada para o lixeiro que passa às oito horas, vou para a faculdade, saio com pressa, pego o metrô depois o estacionamento em frente à estação onde deixei o carro porque não teria tempo para um mínimo de tráfico que fosse. Dirijo para a terapia sem almoçar, em casa faço um prato e como em frente à TV, conversando com meu colega no horário que já deveria ser uma reunião mas virou almoço, depois uma hora discutindo um trabalho e não tomo banho, apenas passo um perfume forte, preciso sair, triste, seria francesa apenas por necessidade porque hoje não posso mais nada, nem tomar banho.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Crock

Não deu tempo de tomar banho, camiseta verde horrível, só vesti aquilo porque ia catar o cocô dos cachorros e estava choviscando e eles certamente iam me sujar. Além de horrível marcada na barra, a terra das patas dos cachorros mas dane-se, coloquei uma calça velha e saí. Sapatilha crock de borracha porque talvez chovesse de novo e quando cheguei na João Moura choveu mesmo, um temporal. Ia passar, chuva forte nunca demora, mas eu tinha hora marcada então deixei o carro no estacionamento, sete dolorosos reais, mas era o mais perto e eu não tinha guarda-chuva. Dobrei as calças e saí correndo, a chave na mão para abrir o portão bem rápido. Entrei, tirei as sapatilhas e deitei. Pela primeira vez naquele divã. Descalça, molhada e com as calças dobradas, não parecia perigoso.
 

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