terça-feira, 15 de abril de 2008
Lupe Cotrim
O auditório tinha o nome de uma professora que escrevia poesias e morreu de câncer nos anos 70. Estava cheio e só consegui sentar na primeira fileira, quase de cara com a mesa de professores que conversavam baixo enquanto os microfones estavam desligados e a palestra não começava. Ele era o mais magro, o rosto quadrado e cabelo claro, olhando papéis cheios de anotações. Não foi o primeiro a falar. Quando chegou a sua vez não levantou o rosto, apenas leu com sotaque francês carregado, se eu não estivesse tão perto provavelmente não entenderia, mesmo à pouca distância sua voz baixa era quase incompreensível. Porque a idéia era incompreensível: "se não fizéssemos uma escolha para a vida toda, era melhor nem começar".
segunda-feira, 14 de abril de 2008
Ponedelijak: Ponarejanje se kaznuje po zakonu
Mil dinares. E eram falsos. O primeiro tapa que Nadežda tomou foi do pai, dono da loja de aviamentos: "como você me pega uma nota desse valor e falsa ainda!". Tomou outro tapa, com as costas da mão: "Qualquer mula desse vilarejo miserável sabe quando uma nota de mil dinares é falsa. Agora, pegue-a e só volte com um valor que cubra o prejuízo". Desesperada, Nadežda saiu do vilarejo. Em outro vilarejo, morro abaixo, tentou passá-la para um peixeiro; esse viu que era falsa e aplicou em Nadežda outro bofetão. Ela nunca mais voltou para casa. Tentou ganhar a vida como prostituta em Banja Luka e hoje é a dominatrix mais famosa de Belgrado. Aplica tapas na cara de marmanjos que lhe pagam dez mil dinares para tal.
domingo, 13 de abril de 2008
Padê e Pão de Queijo
para o Fabinho
A noite foi bafo, fia: padê até branquear o edi, os cafuçu me cheirando tuda por baixo e por cima pirocão uma loucura, minina, uma loucura...! Faz poc-poc na calçada no caminho de volta pra casa, arregaçada, dois quarteirão e a linha Kátia, óculos enormes, cabresto, não-vi-nada. Magnífica, toda diva. Entra na padaria, o mulherão, peitos imensos, pede pão de queijo e faz carão pras coruja da ajeum, num-to-boa, as idosa comprando pão antes da missa corujando ela linda, gostosa, picumã desfeito; entra duas gays casadas camiseta apertada óculão picumã que nem um katrina, corujam ela também, ai-meu-cu! Deixa as moedas no balcão, arruma os mamilo, apalpa o papelote no sutiã e sobe de elevador: belíssima, mulher, dominical.
quarta-feira, 9 de abril de 2008
a lona do Mostradinho
Surgiram na arena. O mágico com cigarro na boca, o palhaço sem metade do pó na cara, correndo atrás da grande bola, a última atração. " No Mostradinho minha gente, é dia de festa!", o locutor dando encantos na voz, "com oferecimento das motocicletas Kilimanjaro" e a trapezista meio gordinha lá no alto se espreguiçando, no maiô rosa furadinho entre as pernas, "você na primeira fila, não se desespere", e os tambores rufando, "ê viva que alegria, gente boni-" e o loucutor tira o pé do globo ensandecido girando, despregado das tábuas colocadas de calço, e lá dentro, a Kilimanjaro bufando gasolina no escapamento, Raulzito globetrotter emociona com uma ave-maria pela sua mão, já longe, coberta pela areia.
segunda-feira, 7 de abril de 2008
Mijnheer Jansen e a vida nova
E eis que surge uma nova natureza, senhores, bem sob vossos excelsos bigodes brancos. Uma nova natureza - sem pólen ou sementes, como diz mijnheer Jansen - mas não feita de tubos amarelos - como propugna mijnheer Jansen - mas de pilhas e baterias velhas. Uma nova natureza artificial, viscosa de ácidos ultrajados, enferrujada, de papelão cozido. Pólos esquecidos. Já viu uma pilha degradar-se na natureza, Maria? Primeiro ela enferruja e fica qual uma salsicha frita, de tanta ferrugem, e suas vísceras de carvão e ácidos vai amalgamando vida nova; sim, Maria, uma nova vida que altera a vida ao seu redor e, depois, toda uma nova civilização.
domingo, 6 de abril de 2008
Para que se prolonguem seus dias na terra
Já velho e ficar órfão: desacreditava. Cinqüenta anos, ele próprio com netos - e o pai e a mãe ainda vivos, fortes, sem sinal de desgaste. Começou a se preocupar. Aos sessenta já estava preocupado o bastante. Não é que não gostasse dos pais, mas aquilo estava errado. "Seu irmão?", perguntavam do pai. "Esposa?", da mãe. Começou a sentir seu próprio corpo falhar: pedra no rim, catarata, câncer de próstata. Foi ficando senil e desconfiado: os velhos nem tosse, nem gripe, nem nada! "Você devia dar graças-a-deus", repreendia a esposa, enojada. Aos setenta teve de ser internado, definitivamente. No leito da UTI, viu os velhinhos entrando, intactos, pela porta. E foi se sentindo pequeno e fraco, como se ainda não tivesse nascido.
quarta-feira, 2 de abril de 2008
bossa-nova
Queria o teu corpo como quero o poema dessa paisagem. Mas só sei tirar retratos. Dar notícias ao amor fora das bulas, das pílulas, dos espelhos ensangüentados, não. Você corre atrás de mim, bolero do corpo que me dribla, mão alçada pela cintura, me dá os pêsames pelas cinzas de nós dois que ainda boiam sobre a água suja. "Não quero essas imagens embaçadas que você faz." E me olha nos olhos do poema. "Veja, nunca te darei as palavras depois da febre." Me esqueço, escrevo: é dezembro de um ano iluminado, as montanhas, a brisa que vem do mar, e, atrás dessa duna, vem o dedo do seu deus tocando o céu da minha boca. Aproveita, dorme no meu ventre, suave asa de mariposa, seus três dias de sangue agitado.
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