domingo, 8 de fevereiro de 2009

A torre

O nascimento aquela euforia de olhos, todos vidrados numa promessa de grandeza que seis anos depois o menino acariciaria na cama, um modo mais confortável de sono. Os treze são uma idade terrível. Trancado no banheiro, era olhar pra baixo e chorar, com medo talvez, mas de quê? Passaria os dias ali, arrancando alegria à força. Mas o susto passaria, a firmeza da carne moldando o espírito, cada vez mais certeza no uso. Aos cinquenta, por vezes, nem se lembrava de tê-lo em si. E não lhe faria tanta companhia aos setenta, embora permanecesse ali sempre um prazer à espreita, de veneno diluido e bote incerto. Ainda que agora pendesse flácido entre as pernas, feito o avesso de um monumento.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

o medo da gente

a epifania, sinto atrás, e isso pouco doce. você chega na porta da área vai direto tomar banho escovar o dente eu como alguma coisa ponho um tênis pra sair você espera no carro. sentamos no bar de cadeira plástico vermelho e pedimos cerveja. o sol no rosto caindo no outro horizonte. as nuvens olhando, dando tchau. pensar na mudança, inútil, é sem saída, dia e noite cercados. eu lembro de quando você pegou o velotrol e jogou no lixo, por que você fez isso eu pergunto, por que jogar o velotrol fora. você com um brilho no olho responde fraco, lurex antigo você diz tive que quebrar uma regra. e a sensação de que seria assassinado, estrangulado por alguém de longe que viria enquanto tomava sol na cobertura.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Diário de Estância, XII


Antes de mais nada, comunhão. As habitações dão para um espaço comum. Esta é pequena. Não tem balanço, não tem coreto. Só bancos. Penso que eu seria mais feliz com um coreto por perto. Sempre que pisasse lá me ocorreriam charamelas, basta isso para que os lábios repuxem, subam, diga X. As coisas como sendo, restam as pessoas que pisam, coisa que não cessa. Trânsito de Tadzios pelo início da tarde, ninguém se abate da vertigem comunal. Porque vertigem, é. Antes de mais nada, vertigem. Antes de mais nada, trânsito. Comum, comunhão, comunal, um dos capítulos deste estudo de Ivo Kranzfelder sobre o Hopper leva o título de “Tirania da Intimidade”. Isso sempre me impressionou um bocado.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

é um equívoco muito fino

E o fogo quando chega a esse estádio, a torcida pulando, inevitável, a maioria das vezes é que você então, goza. Fica constrangido. Como uma flor apoderada entre os meus dedos, a murchar. E aquela sensação da minha força ter de vir menos se não esmaga, e querer gritar é tudo e caralho não me diz o que fazer. Não vejo tesão em violência. Tô sempre lutando por algo. Não essa merda de querer me colocar dentro de um abracinho de freio-puxado. Olha, eu prefiro que a gente se entenda às drogas fortes, aos dromedários. Gostava de ir até o fundo do jardim com o Duda e agitar os galhos perto dos hibisco os morcegos vinham as varetas no céu. Gosto de poder. Agora estou sozinha e terrivelmente incomunicável. Outros até falam comigo. Eu é que não.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Malandragem II

Eu não conhecia ninguém na cidade que servisse de fiador, ou seja, ninguém com salário e proprietário. As pessoas viram proprietárias depois dos 30 ou então NASCERAM proprietárias, eu não conhecia ninguém assim. Na minha família, claro, pais e tios que trabalharam a vida toda economizando e pagando financiamentos, mas eles estavam a 400 km de distância e ainda bem. Eu estava fugindo desesperadamente desse destino implacável de economizar e trabalhar e economizar e trabalhar e por isso dormia entre quatro camas na república das enfermeiras mas estava difícil ser estudante e independente e pobre e lésbica porque para praticar este último adjetivo eu PRECISAVA de um lugar pra transar.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Melancias

O inferno deve ser assim; só que no lugar da água, o fogo. A água vazou do rio e entrou quase dois quilômetros várzea adentro, ou seja daqui, do Parque Dom Pedro até a Porteira do Brás; não tenho galochas; as pessoas enfiam os seus fuscas na enxurrada e os ônibus não se atrevem. A água vai baixar, não será eternamente as tintas do Benedito Calixto e sua várzea inundada que prevalecerão. Ora, terá de baixar. Eu, aglomerado aqui com esse monte de gente na esquina da General Carneiro e da 25 de março só vejo a água barrenta trazer restos de sonhos e cacos de vidas, desde Santo André. Queria mesmo estar mais para frente, junto ao Mercado. As melancias a boiar devem ser mais poéticas.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Bom dia, Fevereiro

Daqui pra frente é um mês inteiro, menos pros velhinhos dum asilo russo que pegou fogo, a Rússia naquele gelo e a velharada morrendo queimada. Em São Paulo, um motorista perdeu o controle da caminhonete e caiu no rio Tietê: também um péssimo jeito de começar: fevereiro. Berlusconi disse que a beleza das italianas é que dificulta a prevenção de estupros. Anna Stella Schic, pianista brasileira renomada, morreu nesta madrugada em sua casa no sudeste da França. Mas muito antes ela já havia parado de tocar piano, quando seu marido, um compositor francês, morreu. Em 1996. Este mês tem carnaval. Minhas avós falam que é coisa do demônio. Uma é católica, a outra evangélica. Mas ambas gostam de ver pela televisão. Porque, admitamos, é muito bonito.
 

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